abandono

FB_IMG_1444486962100

Posted in athena, do arco da lira Tagged , ,

Apontamento nº2: das qualidades [com uma pequena digressão sobre o zodíaco tropical]

O mapa astral, como qualquer criação humana, é um construto cultural. Estamos aqui interessados em discorrer sobre os fundamentos de sua arquitetura. Em nosso primeiro apontamento falamos sobre os4 elementos, porque provavelmente sejam o mais importante fundamento da abordagem astrológica do universo. Hoje falaremos sobre as 3 qualidades que compõem juntamente com os elementos, porque lhes dão novo colorido, a base para se erguer o zodíaco, ou seja, o ciclo zodiacal.

O zodíaco é uma abordagem tradicional do universo. Essa abordagem, ou seja, as escolhas que foram feitas por nossos pais para compreender o universo, baseia-se na construção do zodíaco a partir dos 4 elementos [fogo, ar, terra, água] e das 3 qualidades destes elementos. Desta combinatória de 4 e 3 resultam 12 signos. Então os doze signos, antes de chegarem ao céu, estiveram, isto sim, no coração e na mente de um observador terrestre. Portanto, o zodíaco não é nada mais do que um construto, um mecanismo mental, um instrumento de observação do céu, um instrumento em busca de certasregularidades, que nos garantam certa previsibilidade de eventos. Quem foi este observador? Foi aquele que intuiu que o tempo, pra além de sua marca de continuidade, tinha também especificidades, tinha um espírito. Este observador sabia que o tempo de semear era diferente daquele de colher. E como ele estava interessado em regularidades, e o tempo que tinha para observar o céu era o que se comprimia no tempo de uma vida humana e os fatos observáveis que lhe interessava prever eram: qual o momento mais proveitoso para darmos consecução às mais comezinhas atividades humanas [plantar e colher, amar e deixar de amar, quando coroar o rei, quando começar um novo projeto]. Desta forma ele escolheu projetar aquelas 12 novas categorias de abordagem de todo e qualquer ciclo, produzidas por aquela combinatória, sobre o ciclo anual fruto do movimento de translação da terra em torno do sol [desde que aceitemos a navalha de Ockham, que determina que devemos preferir a teoria que for capaz de explicar um mesmo fato usando-se de maior economia de hipóteses], mas que naqueles tempos pré-Ockham-Copérnico-Kepler foi entendido como derivado do giro anual do Sol em torno da Terra por uma região do céu em que o Sol  parece transitar durante o curso de um ano [a eclíptica]. Essa faixa imaginária de espaço foi escolhida, exatamente pela possibilidade de se observar determinadas regularidades conservando-se estritamente dentro do espectro de vicissitudes que podem suceder no decorrer de uma vida humana, que parecem estar relacionadas a certos eventos celestes gerados em consequência dos movimentos do Sol, da Lua e dos planetas dentro desta faixa de céu [exceção feita aos ciclos daqueles planetas mais distantes do Sol – Urano, Netuno e Plutão – que extrapolam o breve tempo de um homem (Urano hoje parece já começar a caber dentro do tempo de uma vida humana) que parecem ser mensageiros de um tempo de outras estrelas, um tempo de outras galáxias, e que desconhecíamos quando da construção da teoria astrológica].

David Hamblin, em seu livro mapas harmônicos, nos faz perceber que o mapa astrológico é o produto resultante de determinados números, que aqui chamaremos de as matrizes da estrutura do mapa. Tradicionalmente no Ocidente escolhemos como matrizes, há milênios, o três e o quatro. O que produziu um zodíaco com 12 signos. Teoricamente poderíamos ter escolhido, ou vir a escolher, outros números para observar aquelas regularidades [e aqui bem suspeito que esta escolha se deva por quanto na linguagem simbólica dos antigos, o 4 representasse o espaço – os 4 cantos do mundo – e o3 o tempo – passado, presente e futuro; ascensão, apogeu e queda – vale  lembrar que o tempo do qual se trata em astrologia é quase sempre circular, qual seja, um ciclo]. O que por certo produziria outros zodíacos. E provavelmente um modo diferente de olhar o céu. Talvez pudéssemos entender isso comparando à situação do pescador que sabe que o tamanho dos peixes que pescará é já determinado pelo tamanho dos orifícios da malha que ele por ventura venha a escolher para jogar ao mar. Digo então que teríamos muitas astrologias possíveis, bastando construir novos instrumentos, a partir de outras matrizes. Por outro lado, creio pouco prático este tipo de experimentação, pois deveríamos nos desfazer de boa parte do conhecimento astrológico observado por milênios.

Vale lembrar: o modelo astrológico tem vários ciclos [rodas] superpostos. Mas no caso do mapa erguido para o nascimento de uma pessoa, fundamentalmente estão representados o ciclo dos signos [zodiacal], e o das casas. Temos ainda a roda das constelações, que tem seu lugar na abordagem do universo, mas aqui os ciclos já extrapolam em muito o tempo de vida do homem, este ciclo trata não da minha ou da tua vida, mas sim da vida do nosso pequeno planeta que vive e mora em um dos cantos daquilo a que aprendemos chamar Via Láctea, os ciclos giram em torno de 2000-25000 anos. Portanto pouco servindo para orientar nossas vidas.



Depois de toda essa digressão retornemos aos fundamentos. Quais são estas 3 qualidades ? Temos a qualidade cardinal, a fixa e a mutável. Que são responsáveis por criar pequenos ciclos dentro de cada um daqueles nossos 4 elementos. Ciclo composto de três fases [ascensão, apogeu (platô) e queda]:

A Cruz Cardinal [Áries, Câncer, Libra, Capricórnio] [aqui os signos foram dispostos sobre os pontos cardeais, que devem ser entendidos como o início de cada estação (um quadrante do mapa – o que é interessante, pois mais uma vez espaço é usado para significar tempo)]: No eixo horizontal [que no caso dos cardinais se confunde com o horizonte] desta cruz onde Áries [o eu-pulsão, espontaneidade, instintividade, lutar ou correr] confronta Libra [o outro – contenção, normas de conduta, educação, diplomacia]. No eixo vertical Câncer-Capricórnio [que neste tempo dos inícios se confunde com omeridiano local] onde Câncer [a tradição no que tem de conforto, de colo, de lar, de família e de mãe] confronta Capricórnio [a tradição no que ela tem de obrigações, de trabalho, de ter de deixar o colo, de esforço, de Estado e de pai].


A cruz fixa Touro, Leão, Escorpião, Aquário: [aqui estão os segundos signos no decorrer de uma estação, é o tempo de consolidação da mesma estação, é estação no seu auge]. No eixo Touro-Escorpião: Touro [assimilação, agarrar, pertences, valores] confronta escorpião [eliminação, largar, a necessidade de deixar ir, a necessidade de transcender, de transformar e inevitavelmente de morrer (se deixar ir)]. No eixo Leão-Aquário: Leão [expressão pessoal, uma máscara, o ator, a juventude, o rei no que tem de arrogância e generosidade] confronta Aquário [um rosto, o diretor (?), os nossos amigos que por vezes nos mostram seu rosto, a velhice-experiência, o sábio no que tem de superação da arrogância através da diminuição de si mesmo em prol da humanidade].


A cruz mutável Gêmeos, Virgem, Sagitário e Peixes, conforme diz S. Arroyo: [com estes signos se encerram as estações, é tempo de avaliação – aqui buscamos compreender, traçar relações, avaliar, ponderar, pesar ganhos e perdas quanto ao que se viveu durante a experiência daquela estação]. No eixo Gêmeos-Sagitário: Gêmeos [curiosidade, capacidade de relacionar ideias sem obrigação se preocupar com um status de verdade, o advogado que tão bem pode defender quanto acusar] confronta o sagitário [que como um juiz tem de se guiar não tanto por seus interesses, mas sim tentar sintetizar tese e antítese em uma sentença, que deverá tomar um caráter de verdade; tentar dar uma direção, um sentido ao conhecimento]. No eixo Virgem-Peixes:  Virgem [que mais propriamente discrimina, avalia, pesa, mede, compara, cataloga, coleciona, põe as coisas dentro de suas caixinhas, separa conforme categorias] confronta Peixes [que bem melhor equaliza, vê o que é semelhante nos diferentes, tende a dissolver os limites e tenta abarcar o todo, o universo, o uno].


E, assim, é a simples resultante desta combinatória que a cada quadrante do mapa [equivalente a uma estação] irá distribuir os signos sobre a eclíptica sempre na ordem: cardinalfixo e mutável. E que a cada terça parte do mapa disporá os signos na seguinte ordenação: fogoterraar e água. Eis o zodíaco. Muito mais fruto da terra e do coração do homem, que bem soube urdir relações, do que das constelações e do céu.


Posted in do tênues considerações, jazz Tagged ,

Book trailer do Retrato de um tem à meia-luz

Posted in about me, you tube Tagged

O habitante de Pasárgada – Manuel Bandeira

Posted in Sem categoria

Casuarina – É isso aí (Isso é problema dela)

Posted in Sem categoria

Apontamento nº1

Os elementos são a base do quadro de energias da astrologia. Se derivam de quatro qualidades primitivas, que se organizam nos dois seguintes pares de opostos:

Quente e Frio

Úmido e Seco

Quadro de formação dos elementos

Seco e Quente Fogo

Polaridade Yang –

Positiva – Masculina

Seco e Frio Ar
Úmida e Quente Terra

Polaridade Yin –

Negativa – Feminina

Úmida e Fria Água

 

 

Qualidades Primitivas

Seco Menos denso e menos sensível
Úmido Mais denso e mais sensível
Quente Mais móvel e rarefeito
Frio Mais estático e concentrado

 

E devido a estas mesmas primitivas qualidades podemos ordenar os elementos desde cima até embaixo, deste modo:

Fogo [seco e quente]: o mais móvel dos elementos, inconstante, porém iluminador. Fugaz. Filho do alto e que ao alto quer tornar. Originalmente habitava o céu. O magma convulso que habita o centro dos corpos materiais é um pouco de céu nas coisas do mundo. Pondo vistas a inconstância do fogo: é uma fidelidade para com o céu. Portanto o ser do fogo é o aqui há de se consumir em busca de um outro lar. O tempo do fogo: é apenas num instante que o fogo se dá.

Ar [seco e frio]: se faz da mesma mobilidade do fogo, mas no entanto há de considerar as coisas e não torrá-las, teve então de se concentrar [esfriar]. Teve de por o inaudito à fresca e tentar concertar em convenções o que não pode ser dito. Assim como móvel, inconstante. Porém aqui inconstância in extremis, pois inconstância da palavra, do tradutor, que se quer fiel tanto ao que esta em cima quanto ao que está embaixo. Aqui o tempo é o das horas e dos dias, tempo biruta dos ponteiros do relógio que aponta para onde sopra a corrente [vento] de todos os sucessivos pensamentos.

Terra [úmida e quente]: aqui chegamos a imobilidade do firme, do firmado, do timbrado nas coisas que sempre hão de morrer. O inaudito já tinha se feito palavra, agora a palavra tinha de se fazer voz. Aqui não há mais que se contar o tempo, mas sim, há que se viver o tempo das e nas coisas; um tempo tão-só e exclusivamente fiel ao ser daquelas mesmas coisas.

Água [úmida e fria]: a imobilidade se esfria e tende a uma queda sem fim. Quer sumir pelas frestas do limite, e por fim, tende a tudo querer dissolver. Aqui constância e inconstância já não são opostos. Perde-se o firme e ingressa-se naquilo que a tudo abarca e que se concentra no absolutamente escuro. Aqui o tempo é sem nome, sem passado e sem futuro a que ir ter, mas feito de eras inteiras, de um sofrer sempre fiel à espera de que tudo ainda venha a se resolver em um outro qualquer instante.

Posted in apontamentos para um possível manual de astrologia, do tênues considerações, Urânia Tagged ,

revir

ao findar do dia
torno à minha casa
mas que retorno pode haver
se o que torna não é o mesmo que parte
se aquilo que fica
e te acolhe no fim da trilha
já não é senão o duplo do que deixaste

Posted in do arco da lira Tagged

fôssemos pensar
das laranjas o gosto
comeríamos pouco doutras coisas
e por fim
diríamos palavras que não se comem
e que nada sabem do que nos toca a língua.

Posted in do arco da lira

Das perguntas

 

 

Estás aí? E a pergunta sai em busca dela lá pras outras bandas do google talk. A estas alturas ele já desistiu de escrever certo. Os erros povoam a tela, devido às mínimas teclas do teclado qwerty do seu celular, incompatíveis com o gordo de seus dedos. Bah pareço meio leso! É o que ele se diz. Mas não desistiu de conversar. E no grande trânsito de falas e escutas acaba-se sempre por se perguntar. Estás aí?

Depois, Sócrates, respondendo a Fedro, diz: se, a exemplo dos sábios [hoi sophoi] eu não acreditasse, não seria de estranhar. Referindo-se a todas as tentativas, igualmente quiméricas, de explicar as quimeras, os centauros e os pégasos de que se engendra o mito. Mas não tinha muito tempo a perder com tais teorias, pelo simples motivo que ainda tentava conhecer a maior de todas as quimeras – Sócrates.

Logo em seguida Platão põe um elogio a Fedro na fala de Sócrates, que afirma ser Fedro um ótimo guia, desde que havia lhes descoberto um belo e aprazível lugar para que pudessem conversar. Em contrapartida, e apesar de estarmos em Atenas, Fedro diz: e tu, oh Sócrates, pareces um estrangeiro, pois que se põe a seguir um guia.

Este estás aí? é também um pouco isto; o ter confiança num guia. Que em toda conversa há de ser bem mais a pergunta que se faz, pergunta que há de sempre supor alguém lá praquelas outras bandas pra além donde se está. Portanto em toda conversa há algo de fé.

Nesta última segunda-feira, o mestre Arthur Telló acabou por me tornar ciente de mais um dos tantos motivos de se conceber Sócrates como um dos grandes mestres da erótica. Em grego as raízes do verbo perguntar e do verbo amar [no sentido de amor sensual de outro] são semelhantes, ou talvez, como entendem alguns, uma devendo ter se derivado da outra.

Perguntemos agora junto com Sócrates, ou mesmo às quimeras e com as quimeras do mito – que, se não outra razão houvesse, haveria ainda o sonho, a dedicação, o maravilhamento e mesmo o aborrecido tédio de alguns teóricos que por mais de 2000 anos escutaram e depois leram o mito – estás aí? Pois que, perguntar, também, há de ser amar.

Posted in da palavraria, do tênues considerações Tagged ,

Manuel Bandeira O Poeta do Castelo, 1959 – Joaquim Pedro de Andrade

Posted in pura hermenáutica, you tube Tagged ,

poesia com sentimento

Dentre os poetas gaúchos que lançaram o seu primeiro livre recentemente, um dos nomes mais interessantes é o de Jaime Medeiros Jr. Seu livro Na ante-sala (Ed. Portopoesia e Ed. Território das Artes, 200Smilie: 8) traz à tona uma delicadeza sentimental certeira. Jaime encarna o poeta lírico na dose certa: não há exageros nas imagens poéticas nem na forma. O poeta sabe muito bem quando cortar um verso e mantém um léxico digno dum artista do cotidiano.

Jaime evita o hermetismo que para muitos poetas é apenas um artifício que camufla a vacuidade criativa. Ele abraça o verso limpo de intelectualismos e procura material no coloquial. Ao ler os seus poemas, imaginamos Jaime sentado numa mesa de cafeteria rabiscando palavras ou num domingo qualquer anotando versos num banco de parque. Ou ainda numa sala de cinema com um bloquinho e uma caneta – já que em vários poemas de seu livro ele busca inspiração em filmes de sua predileção.
Os três poemas que garimpei para ilustrar esse livro são pérolas de simplicidade e denotam um autor preocupado com as oscilações de uma consciência atenta à delicadeza perdida. Difícil seria não associar cada estrofe a um aspecto singelo de nossa personalidade. Para conhecer com mais porfundidade o trabalho do autor, acesse Tênues Configurações e Filhos de Orfeu, dois blogs de conteúdo apurado.

Obs: hoje estes blogs estão desativados. Acesse sim este blog – Simples Hermenáutica.

poema de sábado

pai
por favor
só um pouquinho de silêncio
por que tantas palavras
pra que tanto falar
pra que eu –
que estou de viagem pra casa
ainda sobre a faixa de segurança
e faltando só uns poucos passos
pra chegar lá –
não esqueça
que apesar de tudo
ainda não sei amar
……………….

tão longe tão perto
(p/ wim wenders)

repleto
dos homens e de suas armas
o barco combina-se à distância com que se recobre o olhar
não não
não sei ser
homem
e contudo
pequena criança
agora sei da arte do tempo
agora sei da morte
e por duas vezes já morri

por te amar
……………

abandono

quando pequeno
pintei em carvão uma pequena casa
esquecida e inabitada
senti toda a tristeza de quem se obrigou a deixá-la
e em meio ao corpo presente da pequena casa re-tratada
senti que toda a ausência que há no mundo
ali estava

Posted in about me, do arco da lira, doutras nauticas Tagged ,

fazer água

 

Quase tudo ainda dormia e quase todo o pensamento que desde a fonte se lhe impunha era em torno do seu menor. Ele estava em febre. A água de beber acabara. Acordara então o maior, ainda franzino demais para cuidar de trazer a bilha, para que tratasse de cuidar do menor pelo tempo de ela ir e voltar com água.

O caminho ora se tornava estreito. Não havia fuga ali daquele passo. Tudo que lhe viesse em contrário lhe obrigaria a cuidar só de si. Lá pra mais da metade daquele estreito, percebe a vir um menino, estranhamente sozinho. Quando pôde divisar seu rosto, assistiu-lhe um susto, pois sua mirada era de todo boniteza. Tanto se lhe impôs o susto que derrubou a bilha.
Choro e desespero. Cacos, muitos cacos. E o chão úmido da água que carregava, lhe sugava os cuidados que havia planeado de dar ao pequeno. O menino a olha e se lhe estreita em um abraço e então cuida de juntar todos os pequenos pedaços da bilha, e sabe-se lá como, entrega-os bilha inteira e cheia d’água. Se despede dele e segue para casa.
Em casa, o maior não resistira ao sono e o menor, sabe-se lá como, com um quase sorriso em seus lábios, vela e cuida do maior a seu lado. Algo em tudo se desperta, e o dia se obriga a amanhecer.

Posted in do tênues considerações Tagged

23/09/11

 

começo a viagem
com eles chegando ao caminho das pedras
interdito
ele afável
ela em seu jeito
natural
eles sabem onde vão
eu sei
e por isto
mesmo alhures
testifico
faço um primeiro pesponto
espargindo
um pouco da solução
volátil sobre a pele dela
um pouco fica, algo se libera do extrato
que opera
suave
sobre as superfícies despertas
faço o segundo pesponto
e vejo a tela de nuvens negras
abrir-se em franja ao poente de depois da chuva
feita de um amarelo brancacento
que pensa o branco em mim
assim como quem diz
é só isto
em tudo e por fim
faço então o último pesponto
apanho estas três coisas
e ponho-as em tuas mãos
te beijo
arrumo a cama
e como bem pouco sei de tudo
e pouco resta
durmo

Posted in do arco da lira

Entrevista com Dilan Camargo 1

Posted in conversa, with me, you tube Tagged , ,

Entrevista com Dilan Camargo 2

Posted in conversa, with me, you tube

Entrevista com Dilan Camargo 3

Posted in conversa, tempo cativo, with me, you tube Tagged , ,

era uma vez o mundo do cronista jaime medeiros jr

Observe o cauteloso pervagar do poeta, e, agora, cronista (note o sentido mais alto e o sentido mais chão), Jaime Medeiros Jr, pelos sendeiros que se bifurcam, não só de seus vastos assuntos – pré-socráticos, arcanos do tarô, Nelson Cavaquinho, um deus de muitos e de nenhum nome, poesia, música, amor –, mas, sim, de suas cogitações vertidas nessa música prosística, toda, ou quase toda, de outro tempo; melhor: de outros tempos, mas não necessariamente a retro, nem de volta a um insondável ponto original. Tempos que são mundos interiores franqueados a nossa visitação emotiva e intelectual. E que às vezes nos deixam de fora dos seus limites; essa estranha hospitalidade também sabe nos fazer estrangeiros de sua língua saudosa de añelos, elos etimológicos, vocábulos pródigos resgatados ao Google.
Observe os largos tempos, a duração da beleza estremecendo os pequenos desencontros do prosaico, a humilde revolução de um dia passado a limpo junto aos livros, na sala de cinema, no caminho úmido de um parque, ao redor de uma imperiosa xícara café. Jaime é um cronista oswaldiano. Por que digo isso? Relacionar seu apetite multifário ao sentido da antropofagia pensado pelo patriarca modernista (apropriar-se do legado e do alheio), embora seja possível, não me parece o mais interessante. A ligação que estabeleço entre Oswald de Andrade e Jaime Medeiros Jr pode ser explicada de maneira mais sincera e modesta, para tanto basta citar um brevíssimo poema do autor de Um homem sem profissão (1954), e que diz assim:

crônica[2]

Era uma vez
O mundo

No texto de um cronista de verdade anda um mundo inteiro. A palavra “crônica”, na sucinta economia do poema, compila em si tanto a função de título como de primeiro verso. Podemos dispor dos sentidos do mundo desde o silêncio que vem depois do verso “O mundo” suspenso na alvura porosa da página. O cronista é generoso com o mundo. A crônica é desprendida por natureza. Observe sua compaixão pelo tempo e pelo espaço. Se o poeta conta com o mundo da linguagem para levar a cabo sua tarefa de apagamento do mundo renomeando-o vertiginosamente, o cronista, por sua vez, modula a linguagem do mundo porque, como certa vez disse o cego Homero, as dores e aflições humanas só existem como tema para os cantos e as narrativas. A crônica de Jaime Medeiros Jr é uma espécie de epos de uma intimidade que se reconhece e se dissipa na conversa jogada fora (mas à maneira de um coup de dés, de onde pode surtir a sua arte), na inatividade ativa da ordinária luz de dias e noites vividos na tensa tranquilidade do humor pensamentoso.
O cronista Jaime Medeiros Jr canta e ouve a cadência do mundo. Misto de flanêur e de peripatético (esse um que não pretende ensinar, mas sim aprender andando, passeando) que folheia aos nossos olhos o seu jornal íntimo, crítico da pósmodernidade, e que se vê implicado nela, e nos observa. Observe, agora – caro leitor, intérprete e executante dessa música ligeira –, como ele nos observa, calmo, com desavisada simbologia.

 


[1] Ronald Augusto Poeta, músico, e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e No Assoalho Duro (2007). Despacha no blog www.poesia-pau.blogspot.com e é diretor-associado do website WWW.sibila.com.br.
[2] In Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade. São Paulo, Globo, 2006.

Posted in do tênues considerações Tagged , ,