Apontamento nº2: das qualidades [com uma pequena digressão sobre o zodíaco tropical]

O mapa astral, como qualquer criação humana, é um construto cultural. Estamos aqui interessados em discorrer sobre os fundamentos de sua arquitetura. Em nosso primeiro apontamento falamos sobre os4 elementos, porque provavelmente sejam o mais importante fundamento da abordagem astrológica do universo. Hoje falaremos sobre as 3 qualidades que compõem juntamente com os elementos, porque lhes dão novo colorido, a base para se erguer o zodíaco, ou seja, o ciclo zodiacal.

O zodíaco é uma abordagem tradicional do universo. Essa abordagem, ou seja, as escolhas que foram feitas por nossos pais para compreender o universo, baseia-se na construção do zodíaco a partir dos 4 elementos [fogo, ar, terra, água] e das 3 qualidades destes elementos. Desta combinatória de 4 e 3 resultam 12 signos. Então os doze signos, antes de chegarem ao céu, estiveram, isto sim, no coração e na mente de um observador terrestre. Portanto, o zodíaco não é nada mais do que um construto, um mecanismo mental, um instrumento de observação do céu, um instrumento em busca de certasregularidades, que nos garantam certa previsibilidade de eventos. Quem foi este observador? Foi aquele que intuiu que o tempo, pra além de sua marca de continuidade, tinha também especificidades, tinha um espírito. Este observador sabia que o tempo de semear era diferente daquele de colher. E como ele estava interessado em regularidades, e o tempo que tinha para observar o céu era o que se comprimia no tempo de uma vida humana e os fatos observáveis que lhe interessava prever eram: qual o momento mais proveitoso para darmos consecução às mais comezinhas atividades humanas [plantar e colher, amar e deixar de amar, quando coroar o rei, quando começar um novo projeto]. Desta forma ele escolheu projetar aquelas 12 novas categorias de abordagem de todo e qualquer ciclo, produzidas por aquela combinatória, sobre o ciclo anual fruto do movimento de translação da terra em torno do sol [desde que aceitemos a navalha de Ockham, que determina que devemos preferir a teoria que for capaz de explicar um mesmo fato usando-se de maior economia de hipóteses], mas que naqueles tempos pré-Ockham-Copérnico-Kepler foi entendido como derivado do giro anual do Sol em torno da Terra por uma região do céu em que o Sol  parece transitar durante o curso de um ano [a eclíptica]. Essa faixa imaginária de espaço foi escolhida, exatamente pela possibilidade de se observar determinadas regularidades conservando-se estritamente dentro do espectro de vicissitudes que podem suceder no decorrer de uma vida humana, que parecem estar relacionadas a certos eventos celestes gerados em consequência dos movimentos do Sol, da Lua e dos planetas dentro desta faixa de céu [exceção feita aos ciclos daqueles planetas mais distantes do Sol – Urano, Netuno e Plutão – que extrapolam o breve tempo de um homem (Urano hoje parece já começar a caber dentro do tempo de uma vida humana) que parecem ser mensageiros de um tempo de outras estrelas, um tempo de outras galáxias, e que desconhecíamos quando da construção da teoria astrológica].

David Hamblin, em seu livro mapas harmônicos, nos faz perceber que o mapa astrológico é o produto resultante de determinados números, que aqui chamaremos de as matrizes da estrutura do mapa. Tradicionalmente no Ocidente escolhemos como matrizes, há milênios, o três e o quatro. O que produziu um zodíaco com 12 signos. Teoricamente poderíamos ter escolhido, ou vir a escolher, outros números para observar aquelas regularidades [e aqui bem suspeito que esta escolha se deva por quanto na linguagem simbólica dos antigos, o 4 representasse o espaço – os 4 cantos do mundo – e o3 o tempo – passado, presente e futuro; ascensão, apogeu e queda – vale  lembrar que o tempo do qual se trata em astrologia é quase sempre circular, qual seja, um ciclo]. O que por certo produziria outros zodíacos. E provavelmente um modo diferente de olhar o céu. Talvez pudéssemos entender isso comparando à situação do pescador que sabe que o tamanho dos peixes que pescará é já determinado pelo tamanho dos orifícios da malha que ele por ventura venha a escolher para jogar ao mar. Digo então que teríamos muitas astrologias possíveis, bastando construir novos instrumentos, a partir de outras matrizes. Por outro lado, creio pouco prático este tipo de experimentação, pois deveríamos nos desfazer de boa parte do conhecimento astrológico observado por milênios.

Vale lembrar: o modelo astrológico tem vários ciclos [rodas] superpostos. Mas no caso do mapa erguido para o nascimento de uma pessoa, fundamentalmente estão representados o ciclo dos signos [zodiacal], e o das casas. Temos ainda a roda das constelações, que tem seu lugar na abordagem do universo, mas aqui os ciclos já extrapolam em muito o tempo de vida do homem, este ciclo trata não da minha ou da tua vida, mas sim da vida do nosso pequeno planeta que vive e mora em um dos cantos daquilo a que aprendemos chamar Via Láctea, os ciclos giram em torno de 2000-25000 anos. Portanto pouco servindo para orientar nossas vidas.



Depois de toda essa digressão retornemos aos fundamentos. Quais são estas 3 qualidades ? Temos a qualidade cardinal, a fixa e a mutável. Que são responsáveis por criar pequenos ciclos dentro de cada um daqueles nossos 4 elementos. Ciclo composto de três fases [ascensão, apogeu (platô) e queda]:

A Cruz Cardinal [Áries, Câncer, Libra, Capricórnio] [aqui os signos foram dispostos sobre os pontos cardeais, que devem ser entendidos como o início de cada estação (um quadrante do mapa – o que é interessante, pois mais uma vez espaço é usado para significar tempo)]: No eixo horizontal [que no caso dos cardinais se confunde com o horizonte] desta cruz onde Áries [o eu-pulsão, espontaneidade, instintividade, lutar ou correr] confronta Libra [o outro – contenção, normas de conduta, educação, diplomacia]. No eixo vertical Câncer-Capricórnio [que neste tempo dos inícios se confunde com omeridiano local] onde Câncer [a tradição no que tem de conforto, de colo, de lar, de família e de mãe] confronta Capricórnio [a tradição no que ela tem de obrigações, de trabalho, de ter de deixar o colo, de esforço, de Estado e de pai].


A cruz fixa Touro, Leão, Escorpião, Aquário: [aqui estão os segundos signos no decorrer de uma estação, é o tempo de consolidação da mesma estação, é estação no seu auge]. No eixo Touro-Escorpião: Touro [assimilação, agarrar, pertences, valores] confronta escorpião [eliminação, largar, a necessidade de deixar ir, a necessidade de transcender, de transformar e inevitavelmente de morrer (se deixar ir)]. No eixo Leão-Aquário: Leão [expressão pessoal, uma máscara, o ator, a juventude, o rei no que tem de arrogância e generosidade] confronta Aquário [um rosto, o diretor (?), os nossos amigos que por vezes nos mostram seu rosto, a velhice-experiência, o sábio no que tem de superação da arrogância através da diminuição de si mesmo em prol da humanidade].


A cruz mutável Gêmeos, Virgem, Sagitário e Peixes, conforme diz S. Arroyo: [com estes signos se encerram as estações, é tempo de avaliação – aqui buscamos compreender, traçar relações, avaliar, ponderar, pesar ganhos e perdas quanto ao que se viveu durante a experiência daquela estação]. No eixo Gêmeos-Sagitário: Gêmeos [curiosidade, capacidade de relacionar ideias sem obrigação se preocupar com um status de verdade, o advogado que tão bem pode defender quanto acusar] confronta o sagitário [que como um juiz tem de se guiar não tanto por seus interesses, mas sim tentar sintetizar tese e antítese em uma sentença, que deverá tomar um caráter de verdade; tentar dar uma direção, um sentido ao conhecimento]. No eixo Virgem-Peixes:  Virgem [que mais propriamente discrimina, avalia, pesa, mede, compara, cataloga, coleciona, põe as coisas dentro de suas caixinhas, separa conforme categorias] confronta Peixes [que bem melhor equaliza, vê o que é semelhante nos diferentes, tende a dissolver os limites e tenta abarcar o todo, o universo, o uno].


E, assim, é a simples resultante desta combinatória que a cada quadrante do mapa [equivalente a uma estação] irá distribuir os signos sobre a eclíptica sempre na ordem: cardinalfixo e mutável. E que a cada terça parte do mapa disporá os signos na seguinte ordenação: fogoterraar e água. Eis o zodíaco. Muito mais fruto da terra e do coração do homem, que bem soube urdir relações, do que das constelações e do céu.


About Jaime Medeiros Júnior

poeta e escritor portoalegrense
livros: na ante-sala [2008]
retrato de um tempo à meia-luz [modelo de nuvem – 2012]
pediatra

Category(s): do tênues considerações, jazz
Tags: ,

Deixe uma resposta