fazer água

 

Quase tudo ainda dormia e quase todo o pensamento que desde a fonte se lhe impunha era em torno do seu menor. Ele estava em febre. A água de beber acabara. Acordara então o maior, ainda franzino demais para cuidar de trazer a bilha, para que tratasse de cuidar do menor pelo tempo de ela ir e voltar com água.

O caminho ora se tornava estreito. Não havia fuga ali daquele passo. Tudo que lhe viesse em contrário lhe obrigaria a cuidar só de si. Lá pra mais da metade daquele estreito, percebe a vir um menino, estranhamente sozinho. Quando pôde divisar seu rosto, assistiu-lhe um susto, pois sua mirada era de todo boniteza. Tanto se lhe impôs o susto que derrubou a bilha.
Choro e desespero. Cacos, muitos cacos. E o chão úmido da água que carregava, lhe sugava os cuidados que havia planeado de dar ao pequeno. O menino a olha e se lhe estreita em um abraço e então cuida de juntar todos os pequenos pedaços da bilha, e sabe-se lá como, entrega-os bilha inteira e cheia d’água. Se despede dele e segue para casa.
Em casa, o maior não resistira ao sono e o menor, sabe-se lá como, com um quase sorriso em seus lábios, vela e cuida do maior a seu lado. Algo em tudo se desperta, e o dia se obriga a amanhecer.

About Jaime Medeiros Júnior

poeta e escritor portoalegrense
livros: na ante-sala [2008]
retrato de um tempo à meia-luz [modelo de nuvem – 2012]
pediatra

Category(s): do tênues considerações
Tags:

Deixe uma resposta