Um percurso textual Na ante-sala

Os poemas de Jaime Medeiros Jr parecem confirmar a opinião de um jovem romancista inglês quanto ao lugar do humor no interior de uma obra literária. Isto é, segundo o escritor, o humor é importante, mas não deve ter a prerrogativa de dizer a última palavra. Numa época de predomínio compulsório da ironia paródica, a afirmação desse romancista parece ser ela mesma um chiste de gosto duvidoso.De qualquer sorte, prefiro dar crédito à tese do inglês e pôr em cheque, também, a norma contemporânea do cinismo risonho como forma de abordagem dos nossos dilemas. Na leitura desse pequeno e complexo conjunto de poemas, intitulado Na ante-sala, pude identificar uma inquietação similar.
A linguagem abrigada entre as capas do livro de estréia de Jaime Medeiros Jr se desenha sobre uma seriedade (ou gravidade) fugidia; felizmente, ela jamais descamba para uma solenidade retórica, que pressupõe o poema como lugar do dizer altissonante. Na verdade, na primeira seção do livro, o poema – espécie de fabulação à boca pequena negociada e negaceada com o silêncio – já é meditado por Jaime Medeiros Jr como o locus amoenus através do qual o vivido é re-apresentado na tranqüilidade da linguagem. O visto e o imaginado se confundem. Portanto, o poeta constrói esta gravidade necessária; ela não assoma assim à toa. Ou seja, ela nasce dos efeitos de linguagem. Os poemas de Jaime Medeiros Jr estão voltados para a substantivação, no sentido em que há neles uma tensão rítmica e discursiva que chega ao seu termo de solução e calma quando o leitor vê aflorar, por fim, o vocábulo-sintagma substantivo, razão de ser e objeto do seu desejo de linguagem. Vejamos a seguinte estrofe do poema que dá título a seção de abertura do volume:

mangueira, caqueiro

abacateiro, pereira

laranjeira, limas e maracujás

todos serenos amparos do orvalho

da noite em breu

mãe dos ratos, gambás

ou mesmo do gato do mato

que certa vez apareceu por lá

O eixo rítmico da estrofe repousa sobre o verso (um decassílabo) “todos serenos amparos do orvalho”, que interrompe a seqüência enumerativa onde são apresentadas as árvores frutíferas, seres mergulhados na serenidade da noite. Serenas criaturas orvalhadas, recuperadas ao “breu do tempo”, ao ritmo do tempo. Promessa de linguagem entre prosaica e prístina; memória feita de consonâncias e assonâncias.
Na seção “Meio-sonetos”, Jaime Medeiros Jr, segundo certa ortodoxia acadêmica, comete um crime de “lesa fôrma”. O poeta submete ao seu fôlego o poema lírico de forma fixa surgido no final da Idade Média e composto de 14 versos, reduzindo-o à metade. Jaime propõe para a composição poética mais praticada de todos os tempos o seguinte esquema estrófico: dístico-terceto-dístico. O poeta se decide pelo uso dos versos brancos, isto é, não rimados. Desde o seu surgimento até agora, os compósitos métricos e rímicos do soneto continuam quase os mesmos. No entanto, o que muda, e mudará sempre, é o tom e a sintaxe. Por outro lado, não se deve perder de vista as conflitantes perspectivas de valor que discutem sua eficácia estética dentro de um processo histórico-estilístico marcado às vezes pelo resgate, outras vezes pela ruptura com os modelos consagrados. Jaime Medeiros Jr se inclina para algo que é mais uma experimentação do que uma cisão com a tradição.
Em termos métricos, os meio-sonetos não se pretendem exatos. Assim, o que aparentemente indicaria um impasse, se converte em vantagem porque semelhante imprecisão no tocante ao balizamento do metrônomo, confere a estas peças uma sintaxe contemporânea: elipses em fuga. Poder-se-ia dizer que o poeta simula uma batida metrificada por meio de uma dicção que se constitui no intervalo entre a versificação tradicional e a “música sem-versista” das vanguardas. Notar no poema o detalhe da precipitação vertiginosa de enjambements como que exigidos pela estrutura paratática e interpolativa do discurso:

em meio a face superior da lata um anel

que em premidas circunstâncias abre, liberta

o que em amarelo quase âmbar  de se

amar, tolda em leve o que antes era

a transparência vazia que se umedeceu

e se esfria e escorre num gole bem doce e

fundo na boca por entre rima, língua e céu

Verdadeiros takes de linguagem “tirando o foco” (o conteúdo ou o assunto) do discurso. O enunciado-verso se ergue – se esboça como onda -, enquanto se dobra sobre si mesmo, e a seguir se anula quando acaba no branco da página por onde começa nossa leitura tateante, cette blancheur rigide como escreveu Mallarmé.
Já penetramos o “cinema em prosa” do terceiro movimento de Na ante-sala. Abrimos o “Caderno de cinema” de Jaime Medeiros Jr. Aqui, lemos e fruímos em travelling as suas imagens de formação: a música calada, o livro mudo das sombras que se movem. Breve paideuma de diretores-poetas que compõem elisões de movimento e metáforas de luz para o indizível, para o eidos do poeta:

colisão

de sombra e luz

acidez

torna sol em preto e branco

A seção derradeira do livro de estréia de Jaime Medeiros Jr intitula-se “Na ante-sala”. O livro principia por meio de um simulacro de encerramento. Um acabar-começar do decurso textual. Alusão ao lance inaugural: o que surtirá desse gesto em direção ao leitor sem rosto? Chance e escolha submetidas à duração da recepção e à recepção como crítica (corrosão ou não) do tempo histórico. Mas, o que importa é que o livro de Jaime Medeiros Jr se publica na hora precisa do percurso sempre impreciso dos fazeres poéticos. Coisa rara entre os de nossa geração de adultescentes, as mitologias e o escopo-pensamento via linguagem do poeta estão plasmados. Jaime não é jovem nem velho, não chega cedo nem tarde: está em processo, ou no lugar requerido pela idade da sua linguagem. Sua poesia e o leitor agora se encontram, é “O romper do ovo”:

  repentes

híbridos

de memória

                e fala

rompem claros de tempo

 palavra pensa

ao fundo

 des-

água em fados

depois

argúi algum pobre diabo

inda

haverá

        algo

infinito

e                pronto

                    pra se amar?

Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e No Assoalho Duro (2007). Despacha no blog www.poesia-pau.zip.net

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Caetano Veloso – Onde Eu Nasci Passa um Rio

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dos meio-sonetos

pequenos pássaros nos fios de luz lembram
a rua da casa de minha tia em tempos
em que ainda se via o tesourinha

cortando as tristezas de quem via trás
o vidro do quarto de minhas primas mundo

em prima facie e nem se desconfia
do que viria e já se sente saudade

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pequena anotação após ler Augusto dos Anjos

O que há de se buscar num poeta? Nada mais do que aquilo que nele se ergue como belo. Creio que de todo perdemos quando, como modernos, nos acostumamos a medir o mundo com o acento futurístico do novo. Tendemos a escorar o entendimento de tudo o que por ventura surja das páginas lidas em uma qualquer linha evolutiva. Criamos o limite a ser ultrapassado [um mito?], não se devendo tomar nada do que ficou atrás. Vivemos o modernocentrismo do verso.

Reli Augusto dos Anjos. Foi bem bom relê-lo. Pois meio acomodado à batida dos modernos, estava algo satisfeito de roer o meu ossinho feito de essências e medulas. Augusto parece habitar um grande entroncamento de estilos, pois que apresenta rompantes de moderno encrustado em seus poemas, como:

Caía um ar danado de doença

Sobre a cara geral dos edifícios!

 

Parece, contudo, que sua temática funda-se bem mais em temas simbolistas, como:

em tudo, igual a Goethe, reconheço

o império da substância universal.

 

Poesia que sempre está a metamorfosear-se no entrechoque dos opostos e na efemeridade das coisas, isso tudo com um acento lúgubre – há algo de barroco no nosso poeta?

Como há de se dormir com este barulho? E aqui o poeta, que não fora educado no gosto moderno pelo sintético, acabou por carregar nas tintas. Grandes doses de adjetivos e sonoridades esdrúxulas, que parecem aproxima-lo do povo [um dos nossos poucos best-sellers em poesia], que parece sentir para além do dito, o que guarda de ribombos e ventanias entretecidos no aparente abstruso de seus versos.

Paro aqui e penso. Talvez o melhor que possa tirar da leitura de Augusto dos Anjos neste momento é o poder tomá-lo como exemplo de que a nossa receita moderna de síntese não deva ser considerada como a única válida. E que talvez devêssemos nos desacostumar com entenderes postos sobre linhas evolutivas. E nos aproximar mais de um entendimento baseado no movimento ondulante entre opostos; do exagero a síntese, da síntese ao exagero.

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o truque

A minha penúltima prosa acabava por se interrogar das causas. Não muito depois fui a Santa Maria visitar tia e primas. Visito também as livrarias. Acabo por encontrar o que não procurava – A magia do mundo grego antigo, Derek Collins, Madras – que acaba por nos impor algumas perguntas quanto a razão das causas e por desvelar vários indícios do quão inconsequente pode ser esta mesma razão.

Agora estamos numa competição atlética, o jovem atleta lança seu dardo e alveja outro jovem, mata-o. Que estrupício! Como hão de se ajeitar as coisas? O truque parece ser sempre o mesmo, recorrer as causas. Neste causo causa se confunde com responsabilidade e responsabilidade com culpa. Por fim se nos apresenta a pergunta: quem é o culpado?

Bem, aqui, entre este e o próximo parágrafo, paro para te recordar e recomendar: procure ver também o verso das coisas, pois tudo tem o seu próprio metro. Produz a ti mesmo. Já é bastante. O suficiente?

Protágoras e Péricles agora tinham problema bastante para encantar com belos discursos a cidade, por dias. Quem é o culpado? O jovem que disparou o dardo: tinha ele alguma querela com o jovem alvejado? Guardava algum crime insuspeito e por isso fora punido pelos deuses? Ou quem sabe o culpado era o transpassado pelo dardo: pois não fora suficientemente imprudente para adentrar o campo bem no momento da arremetida do dardo arremessado? Ou culpado fora, isto sim, o instrutor daquele jovem que não tivera a habilidade necessária para impedi-lo? E como estamos na Grécia, podemos ainda entender, pois aqui é possível que entendam também os tribunais, que o dardo é o culpado, pois eles também guardam em si intenções, assim se explica a presença da magia, agora não só como palavra, ali no título de nosso livro.

E aqui façamos mais uma paradinha para tomar um arzinho. Pois deste modo aproveito para recordar história a mim contada na infância. A família na Kombi sobe a serra em direção a Cruz Alta, não tenho bem por certo, ou um pouco antes ou um pouco depois da Garganta do Diabo, a pedra grande rola desde lá de cima da ribanceira, cai bem sobre o pai que vinha à direção, ele morre. O restante da família, fora ter ganho, por certo, alguns muitos lanhos, permanece vivo. E, por fim, sempre fica em algum lugar, à sombra da vida, algo a se interrogar, quem é o culpado de todo este absurdo?

Para espichar com mais dois dedos de prosa esta nossa conversa, é interessante como outras culturas se encorajaram a responder esta pergunta que teima em não calar. O chefe era o responsável pelo mana da comunidade. Viesse a seca, a colheita não desse muito, a fome grassasse, e ele não fosse capaz de reverter a situação e ele era deposto, sacrificado, inteiramente desmembrado e devolvido à terra na esperança de que o mana da comunidade tomasse novo curso [que pensam disso os nossos chefes?].

Mas para além do simples e puro fato de ter menor ideia de como responder nossa pergunta. Sempre acabo por ter a sensação que, a par de termos ciência sempre renovada a dar de tentar fazer razão com que vestir as causas, nossa ignorância quanto a tudo, algo teimosamente, continua sempre a mesma.

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na linha tensa da intenção

num
período breve
provas
antecedem
o circo posto
em que
solução cretina
atino
atraio o raio
me atrapalho
e sigo
em desalinho
comigo
o caroço da oração
proposta
cora-me
de calor ancestre
rever-
bero-me
beiro-te
e reconsidero
o alinhavo
entre nós
humílimos
de ternura
inconstante
que
não sei dizer
e onde
me prendo

te amo

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Das causas, dos galináceos e do sentar

Recentemente relendo o Fédon me deparo com Sócrates a confessar, um pouco antes de tomar do phármakon, que tinha na juventude se empolgado com os ensinos de Anaxágoras, que afirmava que a causa primeira de tudo era a mente, mas que ao se debruçar sobre o livro de Anaxágoras acabara por se decepcionar profundamente, pois o sábio simplesmente arrolava explicações sobre os fenômenos naturais utilizando-se das explicações de praxe, sustentando que a matéria tinha sua causa nos elementos [ar, água e terra]. E nenhuma explicação sobre os princípios ordenadores das coisas. Desde então resolveu manter o foco nestes princípios [as ideias], pois agir como Anaxágoras lhe parecia ser como aquele que ao tentar explicar porque Sócrates estava ali sentado naquele momento, viesse a tentar explicar o fato imputando aos músculos, aos tendões e aos ossos de Sócrates a causa de ele estar ali. Pois que este modo de pensar parecia esquecer que a causa de Sócrates ali estar era ele [Sócrates] ter escolhido cumprir a lei da cidade, se furtando de aceitar as oportunidades de fuga que lhe foram oferecidas. E, aos que o criticassem dizendo que não tivesse ossos, músculos e tendões não estaria ali sentado, ele responde: sim, certamente, isto é uma condição necessária, mas não a causa.

Seguindo um pouco mais nos defrontamos com a moderna tendência a entendermos como explicações suficientes de um fato a descrição de seus mecanismos de funcionamento. Por exemplo: argumentamos que uma experiência qualquer de realidade pode ser reduzida a tal e tal ambiente bioquímico cerebral. Isto parece não ser outra coisa senão o dizer que Sócrates ali está sentado porque é detentor de músculos, tendões e ossos que assim lhe permitem estar.

De outro lado, temos, por exemplo, a tentativa de explicar um bom poema [outros diriam o poema, pois se não for bom não é poema], pelas muitas partes possíveis de se isolar na análise do poema: ritmo, métrica, assonâncias, paralelismos, etc. Partes que, se bem ajustadas, por si próprias facilitariam a que atingíssemos o bom poema. Um poema bom não é senão um construto bem equilibrado. Parece que aqui estamos novamente a utilizar o mesmo tipo de explicação. Qual seja? Confundimos uma condição necessária com a causa.

Talvez, como no caso da galinha dos ovos de ouro, estejamos buscando, queiramos simplesmente nos apropriar da origem das nossas riquezas, abrindo o ventre da nossa ave poeteira, a qual, em nossos dias, bem não deva passar de galináceo comum, do qual contamos com os ovos para o nosso jantar.

Há, sim, algo invisível, que parece pousar sobre o poema, que o faz vivo. Aqui talvez coubesse lembrar a diferença que faz Otávio Paz entre poema e poesia, que talvez pudesse ser equiparada àquela entre o poema e o poema bom [ou o que para outros é a diferença entre poema e não poema], mas aqui se alarga ainda mais a diferença, pois este acontecimento que é a poesia não é exclusivo de um poema, mas pode se dar sim em qualquer uma das nossas manifestações artísticas [música, cinema, artes plásticas, dança etc.]. Deste modo talvez bem pudéssemos dizer juntamente com Sócrates [que sobejamente parece amar os poetas] que aqui talvez tenhamos atingido [lembrado] mais perfeitamente a ideia do belo. E sim, aqui é bem possível que o poema, sem o querer, acabe por nos ensinar o que é o belo. Ou dito algo ao modo do zen: não é o sentar [zazen] que nos assegura o Zen.

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Muddy Waters – Long Distance Call

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Pixinguinha e Velha Guarda do Samba – YouTube

 

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nota nº2 – [da grafia pessoana]

…As minhas leituras predilectas são a repetição de livros banaes que dormem comigo á minha cabeceira. Há dois que me não deixam nunca – a Rethorica do Padre Figueiredo e as Reflexões sobre a língua Portugueza, do Padre Freire…

…São espíritos de eruditos e de socegados que fazem bem a minha nenhuma disposição para ser como elles, ou como qualquer outra pessoa.

Leio e abandono-me, não a leitura, mas a mim. Leio e adormeço, e é entre sonhos que sigo a descripção das figuras de rethorica do Padre Figueiredo, e por bosques de maravilha que oiço o Padre Freire ensinar que se deve dizer Magdalena, pois Madalena só o diz o vulgo…

…Tive como muitos teem tido, a vontade pervertida de querer ter um systema e uma norma…

…Obedeça a grammatica quem não sabe pensar o que sente. Sirva-se dela quem sabe mandar nas suas expressões.[…] Conta-se de Sigismundo, Rei de Roma, que tendo, num discurso público, commetido um erro de grammatica, respondeu a quem delle lhe fallou, “Sou Rei de Roma, e acima da grammatica”. E a história narra que ficou sendo conhecido nella como Sigismundo “super-grammaticam”. Maravilhoso symbolo! Cada homem que sabe dizer o que diz é, em seu modo, Rei de Roma. O título não é mau, e a alma é ser-se.

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Aqui acima recordo o Livro do Desassocego de Fernando Pessoa [Bernardo Soares – edição da Ed. Ática portuguesa] porque, a exemplo da recente edição de Mensagem pela editora 7 letras, aqui também se manteve a grafia pessoana. Que parece que para além de etimológica também é funcional. Expliquemo-nos: Pessoa ao descrever o local de trabalho de seu guarda-livros denomina-o escriptório, e também se refere a escripta do seu Guarda Livros. O que nos faz passear por criptas que se perdem totalmente ao optarmos simplesmente por seguir os acordos ortográficos que tentam socegar diferenças [a minha nenhuma disposição para ser como elles, ou como qualquer outra pessoa]. Diferenças que não devem ser aplainadas em se tratando do super-grammaticam Fernando Pessoa, sob pena de em alguns momentos já não podermos denominar o texto a nós ofertado, como de resto, a grande maior parte da obra publicada, de pessoano. Aqui parece muito menos importar o eventual peso do etimológico, que certamente o poeta põe em sua palavra, e sim, muito mais importa o seu palavrar, onde quase nada é descuido e quase tudo apuro e imbricamento de sentidos.

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Ler o texto pessoano parece exigir que saibamos que ali tudo se suppõe, e que o texto é todo subtilidades. Aqui nada é inútil. O texto pessoano não é da ordem do inutensílio e sim  do subtil.

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Mínima animália drummondiana

http://esquizofia.files.wordpress.com/2011/04/carlos-drummond-de-andrade-poeta-pedra.jpg?w=450&h=291

Me coube escrever sobre Drummond. Me solicitaram. Aceitei, apesar de guardar um certo desconforto. Como cuidar de honrar a grandeza de Carlos sem se descuidar das medidas? Só mais recentemente consegui colocar Drummond em seu devido lugar [li Claro enigma].

Para não nos impor tarefa para além da que cabe em minha tresleitura do poeta, fiz um mínimo recorte, com a intenção de talvez topar com algo do DNA do autor. Por outro lado, correndo o risco de não conseguir enxergar a floresta em consequência de ter os olhos postos em uma única árvore.

Na Rosa do povo [1942], livro ainda tomado de um ativismo algo programático, vamos encontrar o primeiro daqueles grandes animais que compõem o par com que Drummond resolveu nos agraciar, pondo-os poemas. Nos diz: Fabrico um elefante/ de meus poucos recursos./ Um tanto de madeira/ tirado a velhos móveis/ talvez lhe dê apoio./ E o encho de algodão, de paina, de doçura. Animal feito da faina do poeta que pesquisa, que procura descobrir a partir de velhas matérias algo de novo no mundo ou de um renovo do mundo. Eis sua riqueza, feita de tão poucos re-cursos [possibilidade de voltar e dar novo curso as coisas] pondo algo de paina no enchimento, de doçura que garantam algo de delicadeza nos entrechoques com a vida. Enorme elefante que cuida de não pisar sobre nada vivo, apesar de se conduzir algo desajeitadamente. Esse amoroso fabrico que o poeta nos entrega ainda era um engenho, um mecanismo que se construíra da esperança diante de um mundo torpe. No fim do dia pouco sobra do seu elefante. Mas a essa altura Drummond ainda conseguirá dizer: Amanhã recomeço.

Nove anos decorrem. Vargas e Prestes se abraçam. Drummond concentra seu Áporo e faz seu Claro enigma [1951]. E nos oferta o segundo de seus grandes animais, embora menor e bem mais ao metro de um itabirano, o boi de O boi vê os homens. Carlos já nos diz nas primeiras três estrofes de Dissolução, primeiro poema de Claro enigma: Escurece, e não me seduz/ tatear sequer uma lâmpada./ Pois que aprouve ao dia findar,/aceito a noite/ E com ela aceito que brote/ uma ordem outra de seres/ e coisas não figuradas./ Braços cruzados./ Vazio de quanto amávamos,/ mais vasto é o céu. Povoações/ surgem do vácuo./ Habito alguma?/ Parece que o poeta aqui não está mais a combinar com aquelas anteriores mui grandes esperanças postas sobre o fazer. O seu boi toma um modo mais contemplativo e compassivo de falar das coisas: Tão delicados [mais que um arbusto] e correm/ e correm de um para outro lado, sempre esquecidos/ de alguma coisa/ … parecem não enxergar o que é visível/ e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes e no rasto da tristeza chegam à crueldade. Drummond aceita a noite que percebe não só no mundo, mas também em si como coisa no mundo, de onde brota uma outra ordem de seres e coisas não figurados, que por fim obriga o boi a observar quão faltos de montanha são os homens em faina. Boi robusto firmemente posto sobre sua memória, e que se obriga, para dar bons tratos a digestão, a ruminar e ruminar e ruminar sua verdade.

E agora, em concordância com meu amigo Ademir Furtado, que nos explica que um rico parece não ser o mesmo que um pobre endinheirado. Aqui, entendo que Drummond parece querer ensinar o quão ricos de renovos podemos ser com tão poucos e simples re-cursos.

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Abel Ferreira : Chorando baixinho choro – YouTube

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Pequena nota desentranhada da leitura de Szlezak

Recentemente topei com interessante passagem no livro Ler Platão de Thomas Szelezak comentando a crítica. Passagem que parece deixar claro o quão saudável, mesmo quando demolidora, pode ser a crítica, em alguns casos, mesmo que paradoxalmente, pode vir a fortalecer uma obra. Szelezak cita o caso de Homero que sofreu a crítica dos melhores dos pré-socráticos. Heráclito queria bani-lo dos festivais. Xenófanes zombeteiramente arguia que fossem os bois erguer imagens dos deuses e delas fariam bois. Os deuses homéricos eram demasiadamente homens.

Poderiam os gregos, já a esse tempo, pôr no lixo a Ilíada e a Odisséia? Parece que Homero já havia sido  instituído, era o mestre de uma civilização, os gregos vinham beber sabedorias nele, os filhos dos melhores aprendiam grego com ele. Como dizer, então, que ele nada mais valia?

Os gregos optaram por ler novamente Homero. E disto criaram formas de interpretação alegóricas de sua obra. Homero não dizia necessariamente o que queria dizer, a sabedoria precisava ser desentranhada do poema por novos aparatos interpretativos. O que, de um modo paradoxal, tornou Homero ainda mais importante.

E talvez aqui pudéssemos lembrar Propp ou Campbell, que afirmam que uma narrativa, ou a jornada do herói só poderão se realizar com a aparição de um antagonista. Uma obra literária parece muitas vezes também só alcançar seu destino através de uma fricção com inóspito território da crítica. O que poderá lhe obrigar a se conduzir por novos caminhos, cuidando de forjar novas leituras, mais convincentes para as novas mentalidades.

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nota nª 1 – [ler mais os maus poetas?]

“O papel social de um poeta, no entender de Faustino, está ligado de modo indissolúvel à competência com que explora a língua, pois como Eliot e Pound, acreditava que um mau poema degrada a língua – e quando isso acontece a sociedade entra em decadência” (Maria Eugênia Boaventura) (faustos de Faustino-Pound-Eliot). Deus nos salve da arrogância dos poetas. De outra parte, nos diz o Bandeira de “Abaixo os puristas”em seu Itinerário de Pasárgada: “Devo dizer que aprendi muito com os maus poetas. Neles, mais do que nos bons, se acusa o que devemos evitar. Não é que os defeitos que abundam nos maus não apareçam nos bons. Há poemas perfeitos, não há poetas perfeitos. Mas nos melhores poetas certos versos defeituosos passam muita vez despercebidos” e exemplifica: não foi lendo Bilac que atentou para o trambolho  – adjetivo + substantivo + substantivo + adjetivo – mas sim, lendo pós-parnasianos de segunda ordem.

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Para os amigos e parentes de Santa Maria

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Retrato de um tempo à meia-luz [2]

Neste “Retrato de um tempo à meia-luz”, segundo livro de Jaime Medeiros Júnior, o autor nos apresenta a qualidade característica de sua prosa em textos curtos que versam sobre a própria literatura, a filosofia, a memória, a infância e o tempo. Do Sócrates do Banquete ao Eco dos bosques da ficção, da desconfiança com verbetes só aparentemente banais ao sonho de Santo Agostinho, do mistério de brincar às possibilidades da literatura, lá vai Jaime ser gauche, com suas sacolas enganchadas cheias de memória e delicado espanto.

Dia 04/05, sexta-feira, outro lançamento da Modelo de Nuvem na Palavraria, às 19h: Retrato de um tempo à meia-luz, de Jaime Medeiros Júnior

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Onde está Wally?

 

Que atrapalho pode ser ter de encontrar um dromedário em meio ao deserto! Toma-se então dum punhado de grãos de areia e deixa-se que escoe entre os hemisférios da rígida translucidez encontrada por preparo em vidro de um outro qualquer punhado do que outrora também denominou-se areia. Agora já se tem tempo de transformar existência em trabalho para procurar o dromedário. Mas cum grano salis, guardando-se a devida atenção, há de se escutar aquele grão de areia, que se situa a 77,639 centímetros ao norte donde fincou-se o primeiro pododáctilo do teu pé direito, a gritar assim: mas como esse idiota não percebe que eu sou totalmente diferente deste mar de idiotas que me cercam? Faz-se um pé de vento, a ampulheta cai. A rigidez do tempo esfacelada mistura-se a areia. Tentas colhê-la para que os pequenos cacos de rígido não possam fazer mal algum. Fere-te. Matizas de sangue outro punhado de areia. Um pouco de existência se escoa em dor. Alguns grãos se depositam em teu corte, e junto deles, o sossego inesperado de tua existência.

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